Capa de livro tem duas vidas. A primeira é a imagem que você vê no monitor, ampliada, enquanto ajusta o arquivo. A segunda é a miniatura que o leitor encontra numa lista de resultados, muitas vezes com menos de dois centímetros de largura. O arquivo que funciona nas duas nasce de três decisões tomadas antes de abrir o editor de imagens: proporção, resolução e área segura. Errar a ordem custa retrabalho.
Proporção: quando se fala em capa KDP tamanho, a primeira resposta é uma razão
Para o ebook, a referência da KDP é uma proporção de 1,6:1 — altura igual a 1,6 vez a largura. A dimensão recomendada é 1.600 por 2.560 pixels, e o mínimo aceito é 1.000 pixels no lado maior. Se você tem uma arte quadrada ou em 3:4 e pensa em esticar até caber, o resultado aparece: rostos achatados, tipografia com hastes grossas de um lado e finas do outro. Melhor refazer o enquadramento do que deformar a imagem.
No impresso a lógica muda. A capa não é uma imagem solta: é uma página única que reúne contracapa, lombada e frente. Some à largura da frente e da contracapa a largura da lombada e, nas bordas externas, a sangria — a folga que será cortada. A lombada depende do número de páginas e da espessura do papel escolhido; a tabela muda conforme o miolo, então use a calculadora de capa da própria KDP com a contagem final de páginas, não com a estimativa do começo do projeto.
Daí uma ordem prática que evita quase todo retrabalho: feche o miolo primeiro. Diagramou, revisou, definiu papel e contagem de páginas — só então gere a capa. Fazer a capa antes é a causa mais comum de arquivo refeito na véspera.
Outra confusão frequente é usar a capa do ebook como capa do impresso. As duas partem da mesma arte, mas a do impresso tem contracapa, lombada e uma área de corte que a do ebook não tem. Reaproveite os elementos — tipografia, ilustração, paleta — e monte o layout de novo no formato do impresso, com a lombada já na largura correta.
Resolução: o que 300 DPI quer dizer na prática
300 DPI é a referência para impressão, e DPI só significa algo junto com o tamanho físico. Uma imagem de 1.600 por 2.560 pixels, a 300 DPI, cobre cerca de 13,5 por 21,7 centímetros. Se o livro é 16 por 23, essa imagem não basta — não porque a resolução esteja errada, mas porque faltam pixels.
Ampliar no editor não resolve. A interpolação inventa pixels calculando médias entre vizinhos: a imagem cresce, o detalhe não. O sintoma clássico é tipografia com bordas moles e fotografia com aspecto de plástico. Nesses casos, refaça a arte no tamanho final ou troque a imagem de origem por uma maior.
Para o ebook, a lógica é de tela. O arquivo é reduzido em aparelhos com densidades diferentes; uma capa com pixels de sobra continua nítida no tablet, e uma capa apertada fica visivelmente macia já na miniatura. Guarde o arquivo de trabalho em camadas, em resolução alta, e exporte a versão de envio a partir dele — nunca a partir do JPG reduzido que você usou para testar.
Cor também conta. Para ebook, RGB. Para impresso, entregue um PDF de página única e lembre que a conversão para o perfil usado na produção altera saturação: cores que brilham na tela costumam sair mais apagadas no papel. Vale conferir antes de considerar o arquivo fechado.
Se o arquivo ficar pesado demais para envio, o problema quase sempre é imagem não otimizada ou elemento desnecessário embutido, não a quantidade de detalhe que você desenhou.
A miniatura é o teste mais barato que existe
Antes de enviar, reduza a capa para 200 pixels de altura, abra no celular e olhe a uma distância normal, sem aproximar o rosto da tela. O que você consegue ler? Esse é o teste.
Se o título só é legível quando você aproxima, ele não é legível na loja.
O que costuma desaparecer na redução:
- serifas finas e fontes condensadas;
- texto com contorno, sombra ou relevo;
- variações sutis de tom entre figura e fundo;
- linhas de fio e molduras estreitas;
- a segunda linha do subtítulo e o nome do autor em corpo pequeno.
A correção quase nunca é aumentar um pouco cada elemento. É reduzir a informação: três ou quatro palavras no título, um elemento visual dominante, contraste alto, uma hierarquia só. Capa que funciona em miniatura foi desenhada pensando na miniatura, não no arquivo em tamanho real.
Um cuidado com o texto: título, subtítulo e nome do autor precisam caber sem encostar nas bordas. No impresso, mantenha texto e elementos essenciais a pelo menos 6 milímetros do corte. No ebook, a margem de segurança é visual — nada de deixar a última letra na beirada, porque algumas vitrines recortam a imagem para padronizar a grade.
Checklist antes de enviar
- Proporção do ebook em 1,6:1 e arquivo com pelo menos 1.000 pixels no lado maior.
- Impresso: página única com contracapa, lombada e frente, sangria incluída.
- Lombada calculada com a contagem final de páginas e o papel já definido.
- 300 DPI no tamanho real de impressão, sem interpolação.
- Texto essencial longe do corte e do vinco da lombada.
- Arquivo de envio exportado do original em camadas.
- Miniatura a 200 pixels testada no celular, sem zoom.
Nenhuma dessas etapas garante posição em busca ou mais vendas — isso depende de fatores que não estão no arquivo. O que elas garantem é que a capa chegue à loja como você a desenhou: nítida na tela do tablet, legível na lista e inteira depois do corte.
A capa é a primeira prova de cuidado que o leitor tem do seu livro. Resolver proporção, resolução e área segura antes de desenhar não é burocracia: é o que libera o tempo para o que realmente importa, que é a imagem.